segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Mesmo que não seja amigo do rei

      Com a pauta do jornal pronta comecei a me questionar sobre o que diria eu aos leitores neste editorial. Qual assunto deveria ser abordado. Um assunto que pudesse ser sutil e ao mesmo tempo provocasse reações boas, que gerasse boa vontade para buscar um país, estado, uma cidade melhor para todos.
      Graciliano Ramos, em uma entrevista concedida em 1948 disse:
      "Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.
      Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”
      Queria eu também dizer. Dizer que não podemos seguir o conselho de Manoel Bandeira em seu poema de angústia e decepção “Vou embora pra Passárgada” mesmo que lá sejamos amigos do rei. Mesmo que lá tenhamos tudo o que pudermos imaginar. Mesmo que lá no primeiro momento sejamos felizes.
      Queria eu dizer que precisamos buscar sempre algo melhor, mas sem fugirmos das responsabilidades. Escutei na esquina que o que acontece na política “não é problema meu”, “aquilo? Também não é problema meu”. Será?
      Queria dizer que tudo que nos cerca é problema nosso sim, que a vivência simples ou rica de um cidadão não retira sua responsabilidade do coletivo. Que o que plantarmos agora, nossos filhos e netos colheram.
      Queria dizer que administrações catastróficas tanto lá em Brasília quanto aqui, gerarão problemas de estagnação futura. Que um mal feito agora é o insucesso de amanhã.
      Quero dizer que mesmo que “...Em Passárgada tem tudo, é outra civilização...”, um dia o rei de lá pode ser igual ao rei daqui. Que lá quanto cá podem ficar de forma a deixarem todos descontentes.
      Mas eu não vou embora pra Passárgada, mesmo que aqui eu não seja amigo do rei, mesmo que aqui não tenha tudo que almejo.
      Não vou embora pra Passárgada, pois aqui sou feliz.

Publicado no JCN em mai/2006

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Ailton Carlos Coelho
nascido em 21 de agosto de 1959
na cidade de Apiúna - SC,
Graduado em
Publicidade & Propaganda,
Pós-graduado em
Gestão e Planejamento
de Eventos Turísticos,
e editor dos Jornais JCN e Parole.

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